O final está chegando...
Cúpula de uma das salas da Catedral de Sevilla. Linda! Um boa lembrança deste ano!Hoje estou num misto de
mal humor,
felicidade e
ansiedade.
Mal humor pode ser justificado facilmente pela dor nas minhas costas (que perdura já há 04 semanas) e pelo processo mental que eu me obrigo todas as férias: limpar minhas coisas. Felicidade por estar fazendo aquilo que me propus E ansiedade, bem, ansiedade para passar a dor, para acabar o ano, para finalizar a arrumação.
Durante muitos anos fui jogando todas as minhas coisinhas em uma caixa, que foi aumentando até não caber mais no armário e ser renegada a ficar embaixo da minha cama. Nela eu coloco tudo: minhas agendas antigas, diários, chaveirinhos que ganhei da tia da faxina no colégio, minha carteirinha de estudante do 1º colegial, um bilhetinho no meio da aula, o poster do Roger Waters que eu roubei da parede da faculdade, cartinha de admiradores - umas com perfume até HOJE! -, uma pedrinha, uma conchinha, uma baguncinha... etc e etc.
Durante a faculdade a bagunça mudou de lado. Todas as minhas coisas ocuparam uma estante inteira. Eram livros, cadernos, apostilas xerocadas, réguas, cola, tinta, folhas e pastas tamanho A0,A1,A2,A3,A4,A5, coloridas, brancas, cartolina, colorplus, pluma, horli, paraná... Assim que peguei meu diploma, limpei tudo. A princípio nao consegui me livrar de tudo... Mas como limpo minhas coisas a cada 6 meses, cada vez me desapego mais e mais. Hoje, minha história da faculdade de arquitetura cabe numa caixa, tão grande quanto a caixa de quinquilharias...
Pois bem. Cada vez que arrumo, mais coisas se vão. Cada vez menos, é verdade. Estou chegando na "essência". Semana passada entrei de férias, ontem iniciei o momento arrumação: primeiro o armário, com a velha doação de roupas e organização do que sobra; depois, a caixa de memórias. É nela que estou empacada.
É sempre muito difícil. Eu paro para ler e é como se estivese vivendo de novo. Meu diário de quando tinha 07 anos, escrito com letra de quem acabou de aprender a escrever, ainda me emociona. Assim como os bilhetinhos de amigos, muitos que nunca mais tive contato. Por um instante sinto que ainda sou criança e esses meus amiguinhos estão aqui, tão vivos, tão presentes. Os bilhetes mudam, os amigos mudam, as letras mais sérias, mais formais. Os recados do colegial são hilários, tão bobos, mas tão engraçados. Dormir na aula de geografia, fugir da aula de educação fisica. Os bilhetes da faculdades são ótimos, tão podres e obcenos! Rio tanto, até hoje!
E de repente... Não tenho mais bilhetes. Nem cartinhas, nem cartões. Os postais que meus amigos me mandam, eu guardo com tanto carinho, que é como se eu tivesse visitados tais países... E cartão de natal? Acho que último que recebi faz uns 5 anos... Eu sempre mandei... mas parei de receber... e me esqueci de mandar. Ngm manda mais cartinhas de Natal. É tudo tão "internético", tão virtual. As amizades são virtuais, os beijos, os cartões, as fotos, os diários.
Não sentimos os cheiros, as texturas, não ouvimos as vozes, nem abraçamos. De repente estou conectada a todos, e me sinto tão só! Como se eu visse tudo de uma janela de vidro e todas as minhas coisas estivessem compactadas em um envelope! E... ao ver minha caixa, com seus pedaços de coisas, folhetos, perfumes, objetos... tão táteis, tão saudosos... Sinto-me viva. Com memórias, com uma vida toda dentro de uma caixa! Não em um CD, en um pen drive!
A limpeza, como minha amiga Mari diz, tem função espiritual. É a energia nova chegando, energia ruim saindo, é relembrar, é reorganizar, é repensar. É se ver e se analisar, algo que ninguém pode fazer por você. Ano que vem vou continuar guardando as coisas que gosto, mais papéis, bilhetes, pedaços de viagens... Alguns irão pro lixo na limpeza de julho... os que sobrarem, estarão fadados a viverem sempre comigo!
Minha limpeza do fim de 2010 ainda não acabou, minhas costas doem, mas me sinto feliz. Por mais mal humor que eu esteja neste momento, sei que depois que o Tylenol fizer efeito, eu darei risadas.
Hasta muchachos
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