Divido com vocês o dilema, as dores e as linhas abaixo (poético não?)
"Saiu recentemente na revista Veja (04 jun. 2003): num universo de 17 profissões e de 607 entrevistados, a arquitetura é a profissão mais mal-paga do mercado (salário inicial de R$ 1.700,00 e salário após dez anos de R$ 3.000,00). Nenhum outro profissional ganha tão mal quanto o arquiteto, segundo a pesquisa da revista. Nenhum! Dentre médicos, advogados, biólogos matemáticos, analistas de sistemas, enfermeiros, gente formada em educação física, economistas, geógrafos, engenheiros, jornalistas, licenciados em letras, dentistas, psicólogos e publicitários, todos com dez anos de estrada.
A revista atribui o fracasso da profissão à crise no mercado da construção civil. Mas estranhamente, a profissão de engenheiro vai bem, obrigado. Os decoradores, por outro lado, também têm se destacado...
Não é só uma questão salarial. É muito mais ampla: é uma questão de desvalorização real da profissão, fracasso mesmo. E o fracasso começa de dentro para fora: quantos escritórios de arquitetura assinam a carteira de trabalho dos arquitetos contratados? Pouquíssimos – pelo menos em Belo Horizonte. E pronto: lá vai o arquiteto ignorando olimpicamente mais de um século de conquistas trabalhistas.
E os concursos de anteprojetos de arquitetura, tão esperados, alardeados e justamente festejados em nosso meio? Dos últimos certames nacionais realizados, quantos foram efetivamente construídos? Poucos... Segundo minhas contas não chegam a dez por cento. E os valores dos prêmios? O primeiro prêmio de qualquer projeto deveria corresponder no mínimo ao valor do estudo preliminar da obra, caso ela fosse contratada sem concurso (aproximadamente 1% do valor da obra, por baixo). Mas isso não acontece: via de regra, o valor do primeiro prêmio de um concurso fica em torno de R$ 5.000,00, para um projeto cujo custo de execução beira ou supera um milhão de reais. Se pensarmos que esta mobilização – o concurso – foi a muito custo "conseguida" pelos próprios arquitetos – mal-organizados nos IABs – junto aos proprietários, e que estes quase sempre se reservam ao direito de não construir o projeto vencedor, a situação atual já é de fracasso mesmo: a Veja só confirma o que todo mundo já sabia.
Eu, pessoalmente, atribuo o fracasso da profissão a dois fatores.
O primeiro fator é a deficiência na formação do arquiteto. Valoriza-se em demasia o filósofo-artista em detrimento do técnico, numa área em que o mundo acadêmico é pouco expressivo – ao contrário da sociologia, filosofia etc. Assim, o profissional considerado um bom arquiteto ao sair da universidade é um teorizador ou desenhista de mão cheia, sem área acadêmica que comporte sua produção, ou entidades públicas ou particulares que se interessem por suas divagações teórico-artísticas, significativas apenas no universo fechado da própria arquitetura. Por outro lado, aqueles que se dedicaram às áreas técnicas da arquitetura desde a época mais tenra de sua formação, invariavelmente padecem de um complexo de inferioridade quase doentio em relação ao primeiro grupo, por demais valorizado nas universidades. Este ressentimento pouco colabora para a formação do humanista com a mente aberta para a desejável tarefa de síntese cultural que o ato de construir potencialmente representa, transformando-se numa espécie de engenheiro especializado numa área técnica específica. Cria-se um hiato entre as duas vertentes que vai muito além da simplista oposição entre teoria e prática, e onde nenhum dos lados sai lucrando. Formam-se profissionais invariavelmente frustrados: os primeiros por acharem que seus clientes e atividades que desempenham como profissionais iniciantes não estão à altura de seus dotes artístico-filosóficos – e, de fato, via de regra não estão - ; e os segundos por sentirem-se preteridos em relação aos primeiros numa mídia especializada festiva que valoriza demonstrações ridículas de retórica barata - como o lamentável memorial descritivo de Daniel Libeskind para a reconstrução das torres gêmeas - às soluções simples e corriqueiras de que a profissão trata na maior parte do tempo.
Um segundo fator é a simples falta de lugar social da profissão nos dias atuais e no Brasil: salvo o atendimento da elite e da indústria - de mercados reduzidíssimos - ao arquiteto resta pouca alternativa profissional, já que as instituições públicas rara vez realizam concurso para arquitetos, e quando o fazem, abrem uma ou duas vagas para um órgão com 5000 empregados. Felizmente, com a relativamente recente reformulação da legislação urbana federal, tem-se aberto campo vasto na área de planejamento urbano, ambiental e de levantamento patrimonial. Na maioria das escolas, entretanto, o planejamento urbano é tradicionalmente tratado com tal engajamento político que forçosamente converte-se em disciplina oposta à “frivolidade” do projeto de arquitetura, em lugar de complementarem-se os campos.
Não creio que a solução para este tipo de fracasso esteja nas campanhas de "valorização profissional" promovidas pelos órgãos de classe – que constituem peças publicitárias pedindo pelo amor de Deus que se contratem arquitetos para as obras. Chega a ser ridículo que uma profissão cujos produtos estão tão à mostra – as edificações e espaços habitados – necessite de alguma publicidade adicional. Não. A solução deve passar por algo bem distante disso. Acredito que passe pela reformulação dos desejos, dos anseios do profissional: se, entre o operário e o artista, prevalecesse o artesão, a qualidade média de arquitetura seria melhor; as cidades seriam locais mais agradáveis e o verdadeiro humanista arquiteto faria definitivamente parte de um sistema de produção e planejamento do espaço construído. Humilde mas presente, certamente participaria mais ativamente do meio social em que se insere, com menos fracasso financeiro e mais realização pessoal."
** sobre o autor
Danilo Matoso Macedo é arquiteto (1997) e mestre em arquitetura (2002) pela EA-UFMG. Foi premiado em diversos concursos, destacando-se o Concurso Attílio Correia Lima de Requalificação do Centro de Goiânia, em 2000, 1o. lugar (com Alexandre Brasil, André Oliveira e Carlos Alberto Maciel), o 1º Prêmio Itagrés Arquiteto 2000, em 1995, e o 10º Concurso Paviflex, em 1998, com menção honrosa
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A sensação que tenho é que ser arquiteto no Brasil é quase uma ofensa. Você "se acha" mais do que é, "quer ganhar" mais do pode, não é "tão inteligente" quanto um engenheiro, e ainda tenho que disputar pau-a-pau cada cliente com o Zé, o Pedrão, o Mineiro, afinal, um faz-tudo tem sempre boas idéias e cobra 20% do seu valor. Ou seja: quem contrata um arquiteto é quase eleito o burro do ano. Eu me enquadro em todas as frustrações descritas, de não conseguir efetivamente trabalhar no que eu gosto, de não encontrar quem contrate, de não ter expectativa de ser registrada e ainda ver que todo meu esforço de projetar coisas interessantes e úteis é substituida por ideias simples, afinal "quem vai ver? É melhor fazer assim, que é mais barato...".
Arquitetos: UNI-VOS!
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